quarta-feira, 22 de maio de 2013

yellow hair, you are a funny bear


Quando escutei "Ruin", a primeira faixa de divulgação do disco mais recente da Cat Power, Sun, gostei; e concordei com os comentários de que a música lembrava o estilo do disco You Are Free. Mas a faixa (do disco todo) que mais me instigou foi "Cherokee", lançada na sequência com um clipe tão lindo quanto a música – e dirigido pela cantora. Nela eu pude ver Charlyn Marshall emotiva, instável, "loira", representando ela mesma e tudo o que ela estava vivendo. Ouvi a música milhões de vezes. Depois ouvi o disco inteiro. E, é só minha opinião, mas achei engraçado vê-la com aquele olhar lacrimejante tendo de sustentar um disco de letras positivas. Fiquei com “Cherokee”.

Recentemente ela apresentou uma música nova, posterior ao disco, “Bully”. Só piano e voz. Só piano e uma voz que não consegue – e tomara que não consiga jamais – domar seus sentimentos. E é tão bonito ouvir essa instabilidade, essa rouquidão do corpo que não controla a voz. Cat Power machuca e você não consegue controlar o efeito de sua voz sobre o corpo.

E eu queria ouvir, ver de perto essa mulher violenta. Queria um arranhão. Cada show é uma experiência completamente diferente; ela reconstrói seus discos no palco e transcende sua própria música. E mais: ela pode te mandar beijos e flores como pode simplesmente não dizer nada para agradar o seu ego. E eu queria vê-la, como quem passa na casa de um amigo “só para ver como ele está”. Quase que não consegui. Os ingressos esgotaram e ontem, no dia do show, comprei o ingresso de uma estranha, lá na porta do Cine Joia, minutos antes do show.

Enquanto eu não arranjava a entrada, fiquei na fila com as pessoas que iriam assistir ao show. Me senti parte. Falei sem parar com desconhecidos sobre como eu queria estar ali e rabisquei braços alheios. Me comportando como uma criança que vai ao show da Xuxa, escrevi de canetinha “marry me to the sky” (trecho de “Cherokee”), no meu próprio braço. E em meio a esses momentos irracionais meu ingresso chegou a tempo.

O show começou com pouco mais de uma hora de atraso. Charlyn entrou mancando, tossindo, com um cigarro pendurado na boca e uma xícara de chá em suas mãos. Calada enquanto sua banda tocava “Sea of Love”. Com incensos acesos no palco ela cantou uma versão melancólica, arrastada de “The Greatest”. “Cherokee” deu início às outras músicas novas que ela cantou, ora olhando para baixo, limpando a garganta, olhando com preocupação para um relógio de pulso invisível, ora autografando capas de discos. Quase não sorriu e eu chorei junto, quando ela tirou sua jaqueta de couro preta e colocou uma jaqueta jeans e pendurou uma cruz no pescoço e cantou uma versão exorcizante de “Angelitos Negros”. Fazendo de sua dor, sua performance, ela cantou "Metal Heart" da maneira mais intensa que já ouvi, sem medo de machucar, e me despedaçou com “Bully”. Ela jogou flores, jogou garrafas de água, deu autógrafos aos montes, mas nenhum sorriso falso. Agradeceu séria, a plateia, se debruçou no palco e eu pensei que não iria conseguir ser erguer do chão. CHARLYN MARSHALL, VOCÊ É UM ANIMAL SELVAGEM.

MAIS CAT POWER:

I fucking love you, Charlyn Marshall!

Cat Power @Via Funchal

Red Apples

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